Juros Altos como Mecanismo de Transferência de Renda!

Em um cenário econômico marcado por contradições, o Brasil encara 2026 com desafios estruturais que revelam as fragilidades de um modelo macroeconômico ancorado em políticas herdadas do Consenso de Washington. Apesar das projeções otimistas de redução da taxa Selic, a economia segue presa em um ciclo vicioso de juros elevados, dependência de commodities e concentração de renda. Este artigo analisa como esses fatores se entrelaçam, perpetuando desigualdades e limitando o potencial de crescimento sustentável.

A taxa Selic, mantida historicamente em patamares elevados (15% ao ano em 2025, com projeções de queda para 12,25% em 2026), permanece como um dos pilares da política econômica brasileira. No entanto, longe de ser um instrumento neutro, essa estratégia tem funcionado como uma máquina de transferência de renda da sociedade para os detentores de títulos públicos, um grupo altamente concentrado entre os 0,1% mais ricos do país.

Enquanto a inflação persiste acima da meta (4,4% em 2025 e 4,2% em 2026), os juros altos beneficiam uma minoria que detém a maior parte da dívida pública, enquanto a maioria da população enfrenta crédito caro e estagnação salarial. Esse fenômeno não é novo, nos últimos seis anos, o Brasil registrou aumento acentuado na concentração de renda, com o topo da pirâmide absorvendo ganhos desproporcionais. A promessa de que a redução gradual da Selic em 2026 aliviará a pressão sobre a economia real soa como um consolo póstumo para quem viu seu poder de compra corroído por anos de priorização da estabilidade nominal em detrimento do desenvolvimento social.


O “Tripé Macroeconômico”

Implantado no pós-Plano Real, o chamado tripé macroeconômico metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário revelou-se uma armadilha para o crescimento. A obsessão com a inflação, mesmo em níveis moderados, justifica juros artificiais que sufocam investimentos produtivos e inovação. Em 2026, o PIB brasileiro deve crescer apenas 1,6%, metade do ritmo de economias emergentes comparáveis.

Pior ainda a manutenção da Selic em dois dígitos, impulsionada por um modelo baseado no incentivo ao consumo de curto prazo, cria um conflito insolúvel entre estabilidade de preços e dinamismo econômico. Enquanto isso, o superávit primário, exigido pelos mercados, drena recursos de políticas sociais e infraestrutura, perpetuando a estagnação. A ilusão de que a mera redução da inflação levaria ao crescimento mostrou-se um equívoco histórico, o Brasil é hoje um caso exemplar de como priorizar a crença monetária, pode aprofundar a desindustrialização e a desigualdade.


Desindustrialização e as Commodities

A dependência de commodities, que responde por quase 50% das exportações brasileiras, expõe a economia a choques externos e à condição de “tomador de preços” global. Em 2026, o setor agrícola enfrenta pressões climáticas que ameaçam a qualidade da produção e a competitividade internacional. Paradoxalmente, a alta dos preços das commodities, embora reduza temporariamente a inflação para 3,7% em 2026, mascara a fragilidade estrutural do modelo.

Enquanto países como México e Vietnã avançam na industrialização com base em cadeias globais de valor, o Brasil retrocede na participação da indústria no PIB que caiu para níveis pré-década de 1990, com consequências diretas na geração de empregos qualificados e na produtividade. A falta de políticas industriais consistentes, aliada à volatilidade cambial, tornou inviável competir em setores de médio e alto valor agregado. O resultado é uma economia cada vez mais polarizada entre elites ligadas ao agronegócio/finanças e uma massa trabalhadora presa em serviços informais de baixa remuneração.


O Ciclo Vicioso dos Fluxos de Capital Especulativo

A abertura financeira irrestrita, outro pilar do tripé, transformou o Brasil em refém dos movimentos de capitais golpistas. A necessidade de atrair dólares para financiar o déficit em conta corrente obriga o Banco Central a manter juros elevados mesmo quando a economia desacelera um fenômeno evidente em 2026, quando a Selic só deve cair para 12,13% após meses de pressão do mercado.

Essa dependência gera um círculo vicioso, juros altos atraem capital especulativo, que valoriza o real e prejudica exportações industriais; a desvalorização subsequente força novos aumentos de juros para conter a fuga de divisas. Enquanto isso, o setor produtivo paga o preço com crédito caro, custos elevados e incerteza cambial inibem planejamento de longo prazo. Em 2026, especialistas já alertam que, sem uma reforma do sistema cambial e financeiro, o Brasil seguirá preso nessa armadilha.


Qual Modelo?

O ano de 2026 evidencia que o Brasil precisa urgentemente superar o legado do Consenso de Washington. A persistência da Selic em dois dígitos, mesmo com projeções de queda, reflete a incapacidade do modelo em conciliar estabilidade com inclusão. Enquanto isso, a renda fixa segue “soberana”, mas a sociedade paga o preço com desemprego estrutural e pobreza persistente.

A saída exige ousadia, reforma tributária progressiva para reduzir a dependência da dívida pública; políticas industriais estratégicas para recuperar cadeias produtivas; e controle de capitais para mitigar a volatilidade cambial. Sem romper com a lógica de concentração de renda e subordinação aos mercados financeiros, o Brasil seguirá fadado a ser um exportador de commodities e importador de desigualdade um futuro que, em 2026, já não é mais uma previsão, mas uma realidade.