Como a Realidade do Bitcoin Desafia a Promessa de Anonimato e Descentralização?

Um estudo pioneiro sobre o Bitcoin revelou que, em seus primeiros anos, apenas 64 indivíduos controlavam a maior parte da rede, desmontando a narrativa da criptomoeda como um sistema verdadeiramente descentralizado, anônimo e independente de confiança.

Nos últimos anos, o mundo testemunhou uma demonstração prática que abalou um dos pilares da mitologia cripto, o governo de Israel anunciou a apreensão de milhões de dólares em Bitcoin e outras criptomoedas provenientes de carteiras digitais vinculadas a organizações consideradas terroristas, como o Hezbollah. A operação, resultado de sofisticadas técnicas de análise de blockchain e cooperação internacional, foi celebrada como um golpe contra o financiamento ilícito. Mas, para além do aspecto geopolítico, ela serviu como um capítulo contemporâneo de uma história que começou a ser desvendada muito antes, em um laboratório no Texas.

Lá, a cientista de dados Alyssa Blackburn já estava desvendando, desde a gênese do Bitcoin, aquilo que pode ser descrito como o “novo mito da inviolabilidade”.

Este artigo percorre esse caminho em três etapas: revisita a investigação acadêmica que revelou a centralização inicial do Bitcoin, analisa por que o anonimato prometido se mostrou tecnicamente frágil e, por fim, demonstra como essas vulnerabilidades se traduzem hoje em rastreamento e apreensão de ativos no mundo real. O argumento central é que a promessa original do Bitcoin, ser um sistema financeiro trustless (ou seja, que não dependeria da confiança em pessoas ou instituições), anônimo e descentralizado, mostrou‑se, ao longo do tempo, uma ficção poderosa, mas perigosa. A realidade é de centralização precoce, rastreabilidade inevitável e uma segurança que dependeu mais da cooperação humana do que da perfeição do código.


A investigação que desvendou os primeiros passos do Bitcoin

A jornada para desmistificar o Bitcoin começou com uma curiosidade científica. Erez Lieberman Aiden, geneticista e cientista da computação, e sua colega Alyssa Blackburn enxergaram nos cerca de 324 gigabytes do blockchain original o livro‑razão público e imutável de todas as transações, um vasto conjunto de dados sociológicos e econômicos ainda inexplorados. A pergunta que guiou a pesquisa era direta, como uma economia cripto realmente emerge do zero, e quão anônimos e descentralizados eram seus fundadores? Anonimato poroso: a equipe desenvolveu técnicas capazes de agregar múltiplos vazamentos de dados do próprio blockchain. Comportamentos inseguros dos usuários, características operacionais do software e, sobretudo, padrões técnicos no campo conhecido como extranonce — que acabava vazando informações sobre a atividade dos computadores dos mineradores — permitiram vincular diversos endereços pseudônimos a um mesmo agente. Concentração de poder: ao cruzar essas informações com registros de fóruns e discussões da época, o que inicialmente parecia ser uma rede formada por milhares de mineradores independentes se consolidou em um grupo muito menor. Apenas 64 agentes foram responsáveis por minerar a maior parte do Bitcoin existente nos dois primeiros anos. Em vários momentos, o poder de mineração efetivo esteve concentrado nas mãos de apenas uma ou duas pessoas. “Os 64 do Bitcoin”: entre esses agentes estavam figuras posteriormente conhecidas do público, como Ross Ulbricht (DreadPirateRoberts), criador do mercado ilegal Silk Road, e Michael Mancil Brown, o fraudador conhecido como “Dr. Evil”. O Agente nº 1 foi identificado como Satoshi Nakamoto, o criador pseudônimo do Bitcoin cuja identidade real o estudo deliberadamente não tentou revelar. O economista Eric Budish, da Universidade de Chicago, sintetizou essas descobertas ao sugerir o título “The Bitcoin 64”. O retrato que emerge é radicalmente diferente do mito fundador: em vez de uma rede distribuída e igualitária, os primórdios do Bitcoin foram marcados por forte concentração de riqueza e poder, reproduzindo estruturas de desigualdade que a criptomoeda prometia superar.


A ilusão da descentralização

A pesquisa de Blackburn e Lieberman Aiden vai ao cerne da contradição fundamental do Bitcoin. O cientista da computação Jaron Lanier, um dos primeiros a comentar o estudo, descreveu o fenômeno como um verdadeiro “teatro da descentralização”: cria‑se a ilusão de uma utopia onde tudo é distribuído e igualitário, enquanto, na prática, surge uma nova elite, muitas vezes a velha elite, apenas em um novo ambiente tecnológico. A análise da renda proveniente da mineração confirmou esse padrão, uma pequena fração dos participantes concentrou a maior parte da riqueza. Do ponto de vista da segurança da rede, o dado mais alarmante foi outro. Em diversas ocasiões, mineradores individuais controlaram mais de 50% do poder computacional, o que tornaria viável um ataque de 51%, capaz de reverter transações e comprometer a integridade do sistema. O paradoxo central do Bitcoin emerge exatamente aqui. Apesar de possuírem o poder técnico para destruir a rede, esses agentes dominantes repetidamente optaram por não fazê‑lo. Agiram de forma cooperativa, preservando o valor do ativo que controlavam. Como concluíram os autores do estudo, o sucesso inicial do Bitcoin não se apoiou em uma rede descentralizada e trustless de agentes anônimos, mas na cooperação de um pequeno grupo de fundadores altruístas.

Em outras palavras, o Bitcoin só foi seguro porque contrariou seu próprio ideal, ele sobreviveu não por eliminar a confiança, mas por concentrar poder em agentes que escolheram não abusar dele.

É nesse ponto que a história acadêmica encontra as manchetes contemporâneas. Se os pseudônimos dos primeiros mineradores puderam ser desvendados a partir de vazamentos de dados em um blockchain imutável, o que dizer das transações realizadas por organizações modernas, inseridas em um ecossistema muito mais regulado?

As operações israelenses contra o financiamento de grupos como o Hezbollah representam a aplicação prática das mesmas premissas. O mito da inviolabilidade do Bitcoin se desfaz em duas frentes complementares.

Rastreamento on‑chain: assim como Blackburn explorou padrões técnicos, empresas de análise forense de blockchain, como a Chainalysis, utilizam o caráter público do livro‑razão para mapear fluxos financeiros. Agrupamento de carteiras, padrões de transação e interações recorrentes com serviços conhecidos permitem associar endereços a redes e, em alguns casos, a entidades do mundo real.

Ação nos pontos centrais (off‑chain): organizações sancionadas, cedo ou tarde, precisam converter criptomoedas em moeda fiduciária ou utilizar serviços financeiros. Para isso, recorrem a exchanges centralizadas, sujeitas a regulações e a políticas de identificação de usuários (Know Your Customer). Quando uma carteira rastreada interage com essas plataformas, autoridades podem emitir ordens judiciais para congelar ou apreender os ativos. É esse mecanismo mais do que a quebra da criptografia, que sustenta a maioria das apreensões anunciadas.

Isso não significa que qualquer Bitcoin possa ser automaticamente confiscado, mas evidencia que o sistema se torna vulnerável sempre que interage com o mundo real, regulado por leis, instituições e coerção estatal.


A promessa (o mito)A realidade (a prática)
Anonimato total: transações entre pseudônimos inatingíveisRastreável: vazamentos de dados e análise forense permitem desfazer o anonimato
Descentralização pura: nenhuma entidade controla a redeCentralização: concentração inicial da mineração e dependência atual de exchanges
Sistema trustless: segurança garantida apenas por códigoSegurança cooperativa: integridade histórica dependeu de escolhas humanas
Imunidade à apreensãoApreensão via terceiros e pontos centralizados

Legado de um mito poderoso

A narrativa do Bitcoin como um sistema anônimo, descentralizado e à prova de censura foi seu combustível ideológico mais potente. Atraiu idealistas, libertários e também agentes que acreditaram ter encontrado um instrumento financeiro imune ao poder do Estado. Contudo, tanto a investigação meticulosa conduzida por Blackburn quanto as ações recentes de inteligência demonstram que essa narrativa sempre esteve em descompasso com a realidade.

O blockchain é, por definição, um registro público e imutável. Essa característica é sua força como sistema de verificação, mas também sua maior limitação como ferramenta de privacidade. Como alertou Alyssa Blackburn, existe um horizonte além do qual a criptografia deixa de garantir anonimato absoluto. Assumir que dados públicos permanecerão privados para sempre é um erro conceitual.

No fim, o Bitcoin não eliminou a confiança apenas mudou quem precisa ser confiável. Essa mudança, longe de criar uma utopia financeira, revelou uma tecnologia poderosa, porém imperfeita, cujo funcionamento real é moldado não apenas por linhas de código, mas pelas escolhas humanas que continuam a sustentar ou limitar qualquer sistema econômico.

Referência: https://www.nytimes.com/2022/06/06/science/bitcoin-nakamoto-blackburn-crypto.html

A Perigosa Retórica por Trás dos Ataques de Trump à Venezuela

 (Andrew Harnik/Reuters)

Na semana passada, o mundo assistiu a mais um capítulo da política externa linha dura do governo Trump, a destruição de embarcações suspeitas de tráfico de drogas ao largo da costa da Venezuela. Mas o que mais chamou a atenção não foi apenas a ação em si, foi a justificativa usada para legitimá-la.

A administração Trump tem sido “clara e consistente” em sua narrativa, os traficantes venezuelanos não seriam meros criminosos, mas sim “narco-terroristas” que estariam “enviando uma arma mortal que está envenenando americanos”, supostamente a mando de organizações terroristas.


A ideia não é defender bandido, mas o termo “narco-terroristas” já foi usado por governos anteriores para aumentar a pressão política e militar contra redes de narcotráfico. Sob essa lógica, esses indivíduos deixam de ser suspeitos de crime comum e passam a ser tratados como inimigos em tempo de guerra, alvos legítimos para operações letais, sem necessidade de julgamento, captura ou devido processo legal. É uma porta aberta para execução sumária disfarçada de defesa nacional.


Justiça ou Vingança?

Não há dúvida de que o tráfico de drogas é um problema gravíssimo. Fentanil, metanfetamina e cocaína continuam devastando várias comunidades nos Estados Unidos. Mas responder com ataques militares contra barcos em alto-mar, muitas vezes com tripulações não identificadas, levanta questões profundas.

Quem eram essas pessoas? Havia provas concretas de seu envolvimento com terrorismo? Em que águas ocorreram os ataques? Foram respeitadas as leis internacionais? E, acima de tudo quem decide quem é “terrorista” o suficiente para ser eliminado sem julgamento? A história mostra que, quando governos usam rótulos vagos para justificar força letal, os inocentes muitas vezes pagam o preço.


O Risco de Escalada na América Latina

Além das implicações éticas, há um risco geopolítico real. A Venezuela já vive em crise há anos, com instituições fragilizadas e uma população exausta. Ataques unilaterais por parte dos EUA, ainda mais com base em acusações amplas podem ser vistos como violações da soberania, alimentando o sentimento anti-americanismo na região.